Airbag: Revisitado

Imagem de Marcel Langthim por Pixabay

“In a fast German car
I’m amazed that I survived
An airbag saved my life”

Viagens de carro sempre começam com uma estrada. O asfalto preto contrastando com as belas paisagens e muitos lugarejos que nunca veríamos se não fosse nosso desejo de ir a algum lugar. Porém, há algo de sinistro nelas. Em toda estrada há uma enorme placa nos desejando uma boa viagem ou nosso breve retorno, mas seria mais apropriado se elas tivessem um aviso, como num pórtico de cemitério: “Bem vindo ao Império da Morte.”

Viajar de carro pelas estradas no Brasil é uma experiência desoladora. Todo o caminho até o destino é um lembrete da nossa própria mortalidade. Muitas vezes sinto que estou num campo de batalha, olhando o que sobrou da paisagem depois que as tropas se foram. Pedaços de pneus de caminhão estourados ficam atirados pela pista como membros decepados. Em cada curva há marcas de rodas, como as trilhas deixadas por balas de canhão. As muretas de concreto marcadas por cicatrizes que servem como um lembrete de que a jaula de aço que nos cerca não é invulnerável e que nossas habilidades como pilotos são limitadas. Em cada canto há cacos de vidro espalhados como borrifos de sangue.

Nossa vida é tão frágil quanto o vidro que separa o interior do carro do caos e da selvageria que há do lado de fora.

Além dos lembretes físicos, inúmeros memento mori, o trajeto é uma escaramuça constante. O espaço é disputado com outros motoristas que muitas vezes são o próprio inimigo. Imprudentes e incompetentes, muitos motoristas resolvem jogar com sua própria vida e a dos outros. Meneio a cabeça e xingo a cada ultrapassagem forçada pela direita, a cada moto que anda no vácuo de um caminhão e a cada fechada desnecessária. Não há muito o que fazer além de ficar irritado e continuar prestando atenção. Mas a 120km/h, a imprudência costuma cobrar caro e não é incomum passar por carros que se perderam sozinhos e pararam fora da pista, especialmente em dias de chuva.

Tudo piora ao passar por um posto da Polícia Rodoviária. Obrigados a reduzir a velocidade, vemos que estamos sozinhos. A película escura esconde que não há ninguém do lado de dentro zelando por nós. Do outro lado, os restos despedaçados do que um dia foram carros. Empilhados como cadáveres, são o que restou de incontáveis histórias desafortunadas que acabaram no asfalto. Faltam para-choques, vidros, portas. Às vezes é a frente ou o teto todo que se foi. Às vezes o que está parado ali no pátio é uma pilha de metal tão retorcido que é difícil saber se um dia foi mesmo um carro. As carcaças negras e queimadas talvez evoquem as imagens mais assustadoras.

Dentre os perigos que espreitam a cada curva, nossos maiores são os trazidos por caminhões. Lembro que quando era criança os caminhoneiros eram nossos maiores aliados. Cresci viajando pelas BR-101 e BR-116 entre Porto Alegre e Campinas. As estradas eram de pista simples e os caminhoneiros ajudavam com as ultrapassagens, sendo prontamente agradecidos com duas buzinadas curtas. Os anos passaram e aos poucos a estrada foi duplicada. À medida que a quantidade de pistas aumentou, comecei a conceber os caminhoneiros como inimigos a serem temidos. Um caminhão ultrapassando outro é um evento perigoso que muitas vezes acontece sem o menor aviso, ou seta. Quando comecei a viajar sozinho, sem minha família, preferia pegar a estrada à noite, principalmente porque circulam menos caminhões. Eu me programava para sair entre 17h e 19h, horário em que muitos param para jantar, e assim eu aproveitava a paz e tranquilidade da penumbra.

Isso tudo mudou às vésperas de um Ano Novo na Rodovia dos Bandeirantes.

Meu Renault Clio preto, carinhosamente chamado de Azeitona, já tinha visto passar seus anos dourados. Depois de muitas viagens e muitos quilômetros rodados, sua potência estava bem abaixo dos 1.0 originais. Apesar disso, ainda era um carro confiável e ele estava com a manutenção em dia. Saímos no fim da tarde com destino à Serra Negra para fugir um pouco da cidade. Tocava “Mr. Brightside” da The Killers no rádio e eu rodava a pouco mais de 90km/h, sem forçar muito o já cansado motor do carro. Tudo parecia correr bem, até que a Mariana, que ainda era minha noiva na época, olhou em minha direção e apontou para o caminhão que estava ao nosso lado. Virei o rosto para o lado e vi uma enorme roda, mais alta que a minha cabeça.

— Ele não está perto demais?

Mal havíamos saído de São Paulo, rodávamos há menos de meia hora. Nunca imaginei que algo poderia dar errado. Num instante eu sorria, cantava e apreciava os tons arroxeados do pôr do sol. No outro, sem tempo para uma reação, que fosse pisar no freio, no acelerador ou buzinar. Antes mesmo que pudesse responder à sua pergunta, eu senti a batida.

A roda do caminhão tocou a porta do carro.

A pancada foi forte e o carro pareceu quicar. Segurei firmemente no volante, em vão. No mesmo instante eu perdi o controle do carro. Ouvi um grito e o carro virou de lado e girou. Eu não enxergava nada, a fumaça que subia dos pneus ofuscava tudo. Senti a luz dos faróis dos outros carros bater no meu rosto. O barulho dos pneus guinchando na pista se misturava aos gritos. Tudo não deve ter durado mais que alguns poucos segundos, mas ali dentro pareceu uma eternidade.

Suspenso no ar e no tempo, como uma bailarina, o carro deu três voltas e atravessou a pista toda até bater de lado na mureta de concreto do canteiro central.

Aquele instante de suspensão parecia que duraria pra sempre, mas junto a ele o carro parou. Quase que por um reflexo, tateei a mim mesmo para checar se estava vivo. Eu estava, Mariana também. Nada aconteceu conosco, nem um arranhão sequer. Há quem ouça esta história e diga que foi um anjo da guarda, ou mesmo a própria mão de Deus que nos privou de qualquer mal. Eu não consigo encontrar nenhuma resposta lógica para nossa sobrevivência, então aceito a possibilidade de intervenção divina. Tantas coisas diferentes podiam ter acontecido, mas não aconteceram. Estávamos vivos.

Naquela noite, eu fui o memento mori da estrada. Passei pelo mesmo trecho não muito tempo depois e ainda era possível ver as marcas dos pneus deixadas pela dança frenética do meu carro pela pista. Três longas voltas impressas no asfalto como caligrafia de criança. A mureta ainda estava marcada pela tinta preta. Os cacos de vidro espalhados como sangue borrifado no asfalto. Por algum tempo eu ainda sentia tudo girar ao meu redor e via faróis apontados na minha direção sempre que fechava os olhos.

Viajar de carro pelas estradas no Brasil é uma experiência desoladora. Mais pessoas morrem todos os anos nas estradas no país que em algumas batalhas mais sangrentas travadas ao longo da história. Todos os dias, histórias acabam no asfalto, num resto cronemberguiano do que um dia foi um automóvel, abandonado em um pátio qualquer de um posto da Polícia Rodoviária. Em cada canto há uma lembrança, uma frase escrita no guard-rail, ou espalhada pelo chão. Lembretes deixados pelos outros, e por mim, nos alertando que a vida é curta e frágil demais.

Texto publicado originalmente aqui em 12 de outubro de 2020.

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Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.

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Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.