Porquê eu vou votar (a contragosto) no Haddad

Este texto é uma versão expandida do texto que publiquei junto com a minha foto de perfil nova no Facebook hoje, faltando pouco mais de duas semanas para o segundo turno das eleições.

Esta foto.

Sim, tem uma tarjeta com o nome do Haddad, da Manu “presidente” grandão ali. Se você entrasse numa máquina do tempo e mostrasse isso para o Alexandre de quatro anos atrás, que votou no Eduardo Jorge no primeiro turno e não votou no segundo, ele daria gostosas risadas e diria algo “Cacete, bicho. Você só pode estar brincando com a minha cara.”

Mas é verdade. Esta foto é real, eu mesmo coloquei esta tarjeta de livre e espontânea vontade, mas na verdade eu não queria votar no Haddad. Inclusive, não quero. Nunca votei no PT e em circunstâncias normais eu nunca declararia meu voto abertamente desta maneira. Quem me conhece há mais tempo sabe que eu sou um mala centrista. Se alguém tem dúvidas, é só perguntar para qualquer um dos meus amigos da época que eu cursava Ciências Sociais. Critiquei duramente o Lula por oito anos, a Dilma, desde o momento em que ela foi escolhida como sucessora do Lula, e o Temer.

Este último pra caralho. Quando me perguntavam porque eu não votei na Dilma nas duas eleições em que ela concorreu, minha resposta era sempre a mesma: “Você já viu quem é o vice dela?”

Não acho que o Lula é um santo; acho que PT tem um problema sério de autocrítica e o partido realmente não aprende com seus erros; acho que algumas figuras dentro do partido se beneficiariam muito se mantivessem suas bocas fechadas ou se simplesmente pensassem antes de falar; e acho que a Dilma levou um golpe (branco) por incompetência e falta de articulação política, que sempre lhe faltou. Votei no Ciro Gomes no primeiro turno porque ele se apresentava como uma alternativa razoável ao PT e ainda se mantendo num campo progressista, apesar da Kátia Abreu.

Mas não estamos em circunstâncias normais. Estes não são tempos razoáveis.

A escalada na violência em nome de Jair Bolsonaro me obriga a tomar uma posição, a sair da minha confortável mureta onde passei os últimos 16 anos e de onde eu podia achincalhar a esquerda e a direita, e declarar meu voto no Haddad. Não porque tenho medo, não sou a Regina Duarte, mas porque quero poder ter o direito de continuar sendo oposição.

Pergunto: Se os eleitores deste homem já têm agido de maneira tão vil desde já, agredindo, humilhando e até matando pessoas só por declararem inclinações políticas diferentes das deles, o quê vocês acham que vai acontecer quando ele vencer estas eleições? Por favor, veja a seção de comentários de qualquer notícia, relacionada com política ou não, e veja o comportamento execrável destas pessoas. Qualquer post no Twitter, qualquer postagem com teor político no Facebook. Invariavelmente vai ter uma leva de “bolsominions” postando memes, falando atrocidades,

Você acha que isso vai parar quando as eleições acabarem?

Pior, nos últimos dias em que vemos jogos de videogame onde o “bolsomito” mata homossexuais, travestis e esquerdistas, uma jovem que teve uma suástica gravada no corpo, e um homem assassinado com doze facadas nas costas (isso para citar apenas os casos mais graves, tem muito mais e parece que surge um novo relato a cada minuto), o quê fez o Seu Jair? Saiu da raia, disse que nada tinha a ver com aquilo e, novamente, se vitimizou pelo ataque que sofreu mês passado.

Sim, o ataque foi um atentado horroroso, mas ele está se escondendo atrás disso.

A verdade é que o Bolsonaro não tem mais controle algum sobre as pessoas que o seguem e mesmo que ele mandasse eles baixarem a bola elas continuariam, mas ele é responsável por tê-las instigado através de suas palavras. Ele não mandou ninguém matar ou rasgar uma receita de medicamento, mas ele certamente instigou essas pessoas durante os últimos anos. Ou você acha que as pessoas tiraram do nada que ele “vai matar veado”?

Palavras têm poder.

Isto não é mais sobre um projeto de país. Isto é sobre quem nós queremos ser como nação. Queremos continuar sendo o país que é campeão mundial em linchamentos ou queremos ser um país mais humano? Queremos continuar sendo o país que acha maneiro fazer arminha com a mão e que tem índices de letalidade altíssimos ou vamos ser um país que pode concretizar seu potencial como um país moderno e civilizado?

“Mas eu não consigo votar no PT…”

Se eu consigo, você consegue. Acredite, é só apertar o 13. E vamos juntos ser oposição no ano que vem. O mundo todo tá desse lado de cá, só falta você.

Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.