Quando amigos deixam de ser amigos

Imagem por Free-Photos no Pixabay

Playlist sugerida: Uma hora das minhas músicas mais ouvidas durante a pandemia.

Quando a pandemia começou eu tinha decidido que não iria registrar nada dela. Nem um texto sequer seria escrito. Seria uma nota de rodapé na minha biografia, um mero sopro. “Em Maio estará tudo voltando ao normal e vou poder comemorar meu aniversário no bar com os amigos”, eu dizia. “Vai passar logo”. O Átila só podia estar exagerando e a vida seguiria normalmente no segundo semestre do ano. Estava fazendo minha parte, enclausurado em casa e saindo só para o essencial, que era basicamente ir ao supermercado, à farmácia e ao posto na esquina para comprar cigarros, mas acreditava piamente que logo isso tudo ia passar, igual as gripes suínas ou aviárias de anos atrás.

Idiota.

Eu, como muitas pessoas, estava redondamente enganado. Ela não só durou bem mais que os quinze dias esperados, como também está deixando cicatrizes profundas na minha vida. Ela acelerou muitos processos, freou outros. Planos foram descartados e novos foram traçados para também serem abandonados ou postergados. Profissionalmente, pra mim, foi um ano incrível. Pessoalmente, nem tanto.

Este ano e meio que passou foi particularmente destrutivo no que diz respeito a minha vida afetiva e meus relacionamentos. Estou há mais de ano sem ver a maioria dos meus amigos e estou há meses sem falar com muitos dos que eu considero os meus melhores amigos. Vi minha filha e meus pais apenas duas vezes neste ano de 2021 e provavelmente só a verei novamente no final do ano. As videochamadas, que no início eram constantes, rapidamente foram rareando. Entre intermináveis reuniões de trabalho, consultas psicológicas, aulas e tudo mais pelo Zoom ou pelo Meets, ninguém quer passar mais tempo falando com uma tela. Happy hours no escritório de casa não tem tanta graça assim depois da vigésima sétima vez.

Depois de um tempo, passei a não sentir mais vontade de interagir com outras pessoas. O mais difícil não é a falta de contato, é não sentir vontade de ter contato. Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa sociável, mas com frequência afetiva baixa. A maioria das pessoas que eu mais amo em certa medida também é assim. Ter um círculo social repleto de pessoas com esse tipo de comportamento pode ser bem solitário às vezes. Tive que aprender a me comunicar por mensagens e não só usá-las para marcar coisas. Aprendi a mandar e receber áudios, a ter conversas inteiras pelo WhatsApp. Mas também reaprendi que não é assim que eu me comunico ou como eu gosto de conversar com os outros e isso também foi rareando. Aos poucos, o Twitter foi se tornando a única rede social que eu continuo usando e que eu ainda uso pra me manter próximo dos meus amigos.

Numa call recente com dois amigos que também são notoriamente lentos em responder mensagens, estávamos rindo da improbabilidade do encontro e como, para nós pelo menos, a frequência com a qual conversávamos ou respondíamos as mensagens uns dos outros não era uma medida do nosso amor uns pelos outros.

Mato e Hon, amo vocês. De verdade.

Obviamente as videochamadas são insuficientes. Nada supre a falta de um abraço, uma cerveja derramada na mesa e a parca tentativa de secar ela com os famigerados espalhanapos, os cigarros e as batidas de mão na mesa com o inconfundível brado de “Aí é que tá!”. Tudo que eu queria era estar sentado numa cadeira desconfortável uma mesa com logotipo da Heineken falando sobre como Presence é o disco mais subestimado da discografia do Led Zeppelin, ou contando alguma peripécia que eu vi no caminho pro trabalho naquela semana. Mas, infelizmente, meus amigos hoje são webamigos e assim o serão até que todos nós estejamos vacinados e seguros. A vacina veio, mas ainda não há nenhum prognóstico de quando poderemos estar juntos de forma segura, mesmo que o João Vacinador libere todos os botecos, e sem máscara.

Mas sério, escutem esse disco. Nenhum álbum que começa com Achilles Last Stand pode ser ruim.

Você que está me lendo provavelmente está passando pelo mesmo. Se não e se você está por aí roteando covid, eu vou falar sobre você daqui a pouco.

Não foi só no distanciamento que a pandemia afetou o meu relacional. Apesar de ter diminuído fortemente o contato com todas as pessoas com quem eu convivia, não creio que deixamos de ser amigos por este motivo. Algumas relações precisarão de reparos, mas acredito que em muitos casos irei encontrá-los e abraçá-los como se tivéssemos nos visto ontem. Outras, porém, eu não tenho mais o menor interesse em retomar.

Comecei a repensar muita coisa da minha vida, especialmente sobre quem eu permito que faça parte da minha vida ou não. Muitas pessoas, especialmente naquela fase esquisita da pandemia em que as coisas pareciam estar melhorando no final de 2020, diziam que depois de tanto templo confinadas em casa iriam em qualquer programa medíocre que fossem convidados. Eu já penso o contrário. Eu nunca mais quero perder um instante da minha vida em um programa meio merda, ou com semiconhecidos, amigos de amigos que eu não vou lá muito com a cara, ou com pessoas que não me agregarão nada.

Se tem uma coisa que a pandemia me ensinou foi que a vida é curta demais pra se perder com coisas que não valem a pena.

Como muitas coisa na vida, tendemos a pensar em relacionamentos como exemplos de sucesso ou fracasso. Deu “certo” ou “errado”. O certo sendo o felizes para sempre da Disney e o errado com um bloqueando o outro em todas as redes sociais possíveis. Quando terminamos relacionamentos românticos, as histórias são sempre épicas, tristes, dramáticas e encapsulam uma miríade de sentimentos. São como estrelas, ou vão queimando combustível e morrendo lentamente, ou explodem dramaticamente aos olhos de todos. Finais de relacionamento rendem idas lamuriosas ao bar com os amigos, noites insones, canções e argumentos de filmes.

Mas e quando terminamos relacionamentos afetivos de outra natureza? O que acontece quando deixamos de ser amigos das pessoas? Quando nos afastamos e não reconhecemos mais aquela pessoa como alguém que amamos? Para as centenas de milhares, ou talvez milhões, de músicas sobre corações partidos há apenas um punhado sobre o fim de uma amizade. Tem We Used To Be Friends dos Dandy Warhols, What Difference Does It Make? dos Smiths e um mais número tão pequeno que talvez não seja o suficiente para preencher uma playlist. Relacionamentos platônicos são muitas vezes mais importantes e significativas que relacionamentos românticos, mas porque então damos tanto destaque para um na nossa biografia e o outro acaba relegado como coadjuvante?

Quando amizades terminam o resultado é sempre doloroso. Não vamos para o bar para beber porque brigamos com um amigo, ou escrevemos canções sobre o amigo que te sacaneou, mas talvez devêssemos.

A polarização nas as eleições de 2014 e 2018 serviu de pano de fundo para o fim de muitas amizades. Muitos, de ambos os lados do espectro político, não viam mais sentido em manter contato com pessoas com pensamentos e ideologias tão diferentes. Mal nos ajustamos à vida após a eleição do maior jumento que já pisou neste país, e lá estávamos nós rompendo amizades novamente. Muitos furando quarentena, sendo inconsequentes e postando stories em festas e bares enquanto pessoas morriam sem ar. Outros fazendo o mesmo no sigilo, sem alarde, sem postar em redes sociais e ainda bancando os sanitaristas, vigiando as ações dos outros. Cansamos de ver amigos e conhecidos colocando a si mesmos e aos outros em risco, e continuamos vendo isso todos os dias.

Sim, você que está aí fazendo festinha e achando que não pega nada, pois bem, pega sim. Não é mais apenas uma questão ideológica. Eu não te quero mais na minha vida, e sei que muita gente pensa igual a mim. Os seus amigos continuariam sendo seus amigos se soubessem o que você faz e não coloca nos stories?

Claro, nem todas as amizades terminaram porque pessoas resolveram ignorar a pandemia em prol da sua “saúde mental”, mas deixemos esse assunto para outro texto.

Enquanto isso, sigo enclausurado em casa. Aguardando a segunda dose da vacina, minha e de todos que eu amo, para enfim revê-los. Aguardarei ansioso no bar de sempre com um prato de torresmo e uma Coca-Cola KS gelada. E talvez uma dose de Domecq.

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Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.

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Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.

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