Três Anos Depois: Bem-vindos ao Deserto do Real

Foto de Marília Castelli no Unsplash

Criei o hábito escrever um texto retrospectivo sobre o que se passou desde que o ogro que chamam de mito foi eleito presidente em 2018. O primeiro texto, em 2019, foi ainda cheio de raiva e carregava um ódio profundo dos meus compatriotas, muitos deles meus parentes, por ter entregue o Brasil aos chacais por qualquer motivo que fosse. O segundo, no ano passado, foi um pouco mais difícil de escrever. Eu ainda sentia raiva, mas a pandemia me distanciou dela. Um ano trancafiado em casa roubou-me esse ódio. Foi trocado por desdém e indiferença. Aí chegamos em 2021, depois de quase dois anos de pandemia, trancafiado em casa e vendo o mundo passar pela tela de proteção que impede minhas gatas de se defenestrarem.

Estamos nos aproximando do aniversário de três anos da eleição e da posse do Corno do Vivendas da Barra e eu estou exausto.

Eu poderia passar este texto todo enumerando todo o horror que se instalou neste país e o que piorou desde que puliquei o texto do ano passado, mas não vou fazer isso. Vocês também leem as notícias, acompanham a CPI da COVID ao vivo e sabem tão bem quanto eu o estado de total desolação no qual o Brasil se encontra. Tanta coisa aconteceu só neste ano que apontar cada pedaço do quebra-cabeças que forma a barbárie que chamamos de Brasil tornou-se um exercício cansativo e potencialmente infinito. Eu enumerei elas na minha cabeça e fiquei exausto só de pensar em cada uma dessas pequenas derrotas diárias.

Bons tempos em que entre os absurdos mais memoráveis estava ele roubar um cachorro.

Ah, se esse cão soubesse do que escapou…

A diferença entre o que se passou no ano passado e neste ano foi a gravidade das nossas derrotas. Até meados de 2020, mesmo nos primeiros dias da pandemia, o presidente (ahem) só nos deu mais do mesmo. O mesmo Seu Jair, um falastrão grosseiro e tacanho. Sim, a cada live, vídeo no cercadinho ou manifestação, víamos o tom do absurdo escalar. Muitos agarravam seus colares de pérolas em espanto com falta de empatia e senso de republicanismo do presidente. Em 2021, com a revelação do caso Covaxin, tivemos uma pequena amostra do que viria em matéria de horror. Esse horror foi completo com os experimentos mengelianos feitos pela Prevent Sênior em seus conveniados.

Não há alento algum em ser brasileiro. Nem por um dia sequer. Fazem três anos que elegemos um literal saco de cocô ambulante como presidente e cada dia que passa parece ser pior que o anterior. Um sujeito que se recusa a usar máscaras em público durante a pior pandemia desde a Gripe Espanhola e, muito pior, ainda remove a máscara do rosto de crianças. Um canalha mentiroso e egoísta, que ocupa a posição apenas para seu próprio proveito. A pandemia e a condução do Governo Federal dela foram desastrosas e a cada semana a CPI dissecava acontecimentos cada vez mais escabrosos. O último envolvendo a Prevent Sênior está sendo, possivelmente, o mais horrível. Porém estamos todos tão cansados e amortecidos com tudo isso que perdemos nossa habilidade de nos chocarmos e nos indignarmos com o que é absolutamente chocante e indigno.

“Ain, ele não é meu presidente. Eu votei no professor…”

Isso não é sobre você. Por uma mísera vez na vida, eu gostaria que você não tentasse fazer com que toda e qualquer situação possível fosse sobre você.

Ser brasileiro é estar acostumado com o horrível. Se há algo que nos representa como nação mais que futebol, samba e caipirinha, essa coisa é nossa incrível habilidade de ignorar o que há de mais abjeto e horroroso e seguir adiante, como se aquilo fosse perfeitamente normal e razoável. O horror diário tem muitas faces. É a quantidade absurda e crescente de pessoas sem lar ocupando as ruas das nossas cidades; os imensos rios de cocô completamente mortos que atravessam a maior cidade do país; Pessoas enfiadas e esquecidas em cubículos insalubres, formando uma das maiores populações carcerárias do mundo; As milhões de pessoas não têm o suficiente pra comer em suas mesas; A União gastar mais dinheiro com gasolina e paletós de deputados do que com pesquisa e extensão; A destruição do maior bioma do mundo, pilhado por uns trocados de uns poucos sujeitos gananciosos e medíocres.

Aceitamos tudo isso, e muito mais, como se fosse nada. Olhamos tudo isso acontecer diante dos nossos olhos ou na televisão e o máximo que fazemos a respeito é escrever um tuíte mal humorado que vai ter duas ou três curtidas.

Me peguei pensando sobre isso enquanto assistia um episódio da primeira temporada de The Wire, minha série favorita. Pra quem não conhece, é uma série da HBO do início dos anos 2000 que retrata a rotina das instituições de Baltimore, uma das mais violentas cidades daquele país. Sem entregar muito da história, em um certo diálogo, o tenente responsável pela Divisão de Homicídios da polícia menciona que por ano são cometidos cerca de trezentos homicídios naquela cidade. Desde 2002, quando a série estreou, até hoje, os dados permanecem mais ou menos os mesmos.

Só na cidade de São Paulo foram mais de três mil só ano passado, um leve crescimento em relação aos dois mil e novecentos de 2019.

Claro, São Paulo e seus 12 milhões de habitantes é incomparavelmente maior que Baltimore. Então vamos comparar com uma cidade de estatura parecida. Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso tem cerca de 600 mil habitantes, número próximo ao de Baltimore. Lá tivemos um total de 602 assassinatos no ano passado, o dobro da cidade americana. Com esse número ela fica longe de ser considerada uma das cidades mais violentas do Brasil. Com esses números, o governo local, inclusive, comemora que a cidade passa longe de ser considerada uma das cidades mais violentas do mundo.

Os Estados Unidos são um país melhor por isso? De jeito nenhum. Longe de mim defender o país com a maior população carcerária do mundo. O que estou apontando é como o grau do que eles consideram inaceitável é muito diferente. Nosso limiar de tolerância para o horror é muito maior.

Então, voltamos ao estrupício que atualmente ocupa a cadeira da presidência do país. Durante boa parte do ciclo eleitoral de 2018 e todo o mês que precedeu o segundo turno, eu trabalhava em uma agência na Vila Mariana e todos os dias tomava café numa padaria próxima à ela. Meus cafés geralmente eram acompanhados do horário eleitoral gratuito, que passava na televisão enquanto as outras pessoas almoçavam. Muito mais que o antipetismo e o discurso anticorrupção, eu ouvia constantemente a indignação das pessoas em relação à segurança pública, principalmente ao número de assassinatos. A estatística que 80 mil pessoas eram assassinadas por ano no Brasil era papagaiado constantemente. Além do número ser muito inferior, em 2017 foram apenas 65 mil, passava longe das pessoas servindo-se do churrasco que era no buffet do almoço que a grande maioria daquelas mortes era de pessoas negras e periféricas, uma realidade em distante daquela da Vila Mariana. Mais ainda, que boa parte dessas mortes foi causada pela polícia.

As coisas melhoraram com o Bolsonaro? É claro que não. Em 2020 tivemos, inclusive, um aumento de 5% no número de assassinatos em relação ao ano anterior. Em plena pandemia. As promessas de reduzir a criminalidade foram tão vazias quanto o plano de governo no formato dele. Não há perspectiva ou plano concreto para diminuir esse número, assim como nunca houve um plano de combate à pandemia que realmente colocasse a vida das pessoas em primeiro lugar. A indignação com aquele número de mortos não era real. Se fosse, haveria indignação com o número de mortos causados pela COVID-19 e, principalmente, com a desastrosa condução do governo que contribuiu direta ou indiretamente com esse número. Não há indignação pelos mortos, pelo atraso na vacinação, pela Covaxin, pela Prevent Sênior. Enquanto muitos ainda aplaudem e o chamam de “mito”, nós sentamos sobre as nossas mãos e escrevemos um tuíte chamando-o de “genocida”.

Simplesmente aceitamos tudo isso, e marcamos uma manifestação, para levar cartazes com frases de efeito e nenhuma substância real.

A única manifestação que eu apoiaria (Johanna Buguet/Unsplash)

Enquanto escrevo este texto, estamos beirando um total de 600 mil mortos por COVID-19, de acordo com os números oficiais. Esses 600 mil não chocam mais. Não chocavam nem quando eram dois mil por dia. Os 65 mil assassinatos nunca chocaram ninguém, nem as barbaridades diárias do presidente irão. Mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu estarás bebendo em pé na calçada de um bar lotado na Avenida Luiz Dumont Villares como se nada estivesse acontecendo. E o Brasil segue, e nós seguimos com ele.

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Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.

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Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.