Um ano depois: Porque eu votei em Fernando Haddad (e porque eu votaria nele de novo)

Queimada na Amazônia meramente ilustrativa.

Há mais ou menos um ano eu estava fumando uma carteira de cigarro por dia, dormindo mal e tentando disfarçar crises leves de ansiedade no ambiente de trabalho. O motivo? Bem, todos vocês devem saber. A ideia de ter Jair Messias Bolsonaro como Presidente da República tirava meu sono e me causava uma agonia como eu experimentei poucas vezes na minha vida.

Não, eu não estou exagerando. Eu realmente gostaria de estar exagerando.

Há pouco mais de um ano atrás estávamos às vésperas da eleição. Eu declarava o voto em Ciro Gomes para o primeiro turno, embora não estivesse lá muito engajado em fazer campanha para ele. O Ciro parecia pra mim o candidato menos horroroso entre os “Cinquenta Tons de Temer” e outras bizarrices. Nestas bizarrices eu incluo a candidatura de um Lula preso sem chance nenhuma de concorrer realmente e fatalmente sabotando a campanha do Haddad. Porém, apesar de simpatizar com o Ciro, ainda falta alguma coisa para que eu pudesse endossar sua candidatura plenamente. O discurso dele me levava a crer que, caso ele fosse eleito, seria um continuísmo da política conciliatória lulista que nos levou até aqui. Apesar disso, votei nele, não me arrependo de ter votado nele e se você vier com “ah, mas ele foi pra Paris”, meu mais sincero foda-se pra você. A transferência de votos do Ciro foi quase integral. Ponha a culpa em quem a culpa cabe.

Com o resultado da primeira etapa do pleito e eu fui colocado na “escolha muito difícil” em escolher entre um comentarista do programa da Luciana Gimenez e o Diet Lula.

Só que não. Só que nem um pouco.

Enfia a merda desse editorial no cu do arrombado do teu pai, Estadão.

Não existia uma escolha muito difícil. Era pateticamente óbvio que a única opção razoável era votar no Haddad. Bolsonaro, literalmente, representa tudo que eu mais odeio e desprezo. Não morro de amores pelo PT, inclusive passei duas legislaturas do Lula e uma e meia da Dilma xingando o PT. Belo Monte, a Lei de Segurança Nacional, o Mensalão, as indicações estúpidas pro STF e pro STJ, a política conciliatória do lulismo e a arrogância e falta de diálogo da Dilma, e tantos outros erros. Por muitas vezes os treze anos de PT entre Lula e Dilma foram indesculpáveis. Meus amigos de esquerda me acusavam de ser de direita ou de ser isentão e, falando francamente, na maior parte do tempo eles tinham razão e eu estava feliz em ser isentão mesmo e, jocosamente, me autointitulava um “radical de centro”. Era uma posição confortável onde eu podia achincalhar a esquerda e a direita.

Como deixei claro no meu texto anterior eu nunca havia votado no PT e em circunstâncias normais nunca votaria no Haddad, apesar de ter uma simpatia por ele adquirida quando ele foi prefeito de São Paulo. Mas não eram tempos ou circunstâncias normais. Votar no Haddad, pra mim, não significava endossar o PT, e sim votar conta um “projeto” burro, fascista e abertamente racista, misógino e evangélico.

Sim, ser evangélico é uma característica negativa. Ou você se identifica com esse cristianismo chinelão de igreja de cadeira de plástico?

Às vésperas da eleição eu escrevi um texto. O objetivo era justificar para mim mesmo e para os outros o porquê eu estava fazendo aquilo. Na época, muito contagiado por um espírito tratar o Bolsonaro como Voldemort e também não dar mais palco para ele. eu escrevi um texto que procurava não jogar mais lenha na fogueira e alertar a uma potencial escalada que o discurso bolsonarista de “fuzilar a petralhada” estava trazendo e poderia piorar caso ele fosse eleito. De fato, piorou, mas ainda não está tão horroroso quanto eu antecipava na época. Ainda.

Na época eu não quis escrever um texto ressaltando os inúmeros defeitos do polha que hoje atende por presidente. Já havia muito disso na rede e eu quis tentar furar algumas bolhas com ele. Passado mais de um ano da eleição e pouco mais de um ano de aturar esse boca mole como presidente, eu sou obrigado a dizer que eu estava errado.

Errado pra caralho.

Eu deveria ter achincalhado aquele filho da puta. Ridicularizado todos que pretendiam votar nele por votar em alguém com todas as características que sempre acusaram o Lula de ter (e na maioria das vezes, estavam errados). O fato dele estar sempre cercado de gente horrível. Eu cresci na Igreja sendo ensinado que “pastores”, “bispos” e “apóstolos” televisivos, como o Malafaia, o Edir Macedo, o Magno Malta e outros menos votados eram falsos profetas e lá estão pessoas que um dia eu chamei de irmãos apoiando o mesmo homem que estes charlatões.

Devia ter apontado a burrice dele, o fato que ele não consegue fazer uma analogia decente e fala como um debiloide com paralisia facial. Mas, mais do que isto, eu deveria ter achincalhado os filhos dele.

Puta que o pariu, os filhos dele.

Quantos alqueires de cana essas @s merecem?

É difícil apontar hoje no Brasil uma corja pior que os quatro filhos dele. Sim, o Jair Renan (ou é Renan Jair?) também. Lolzeiro playboy babaca do caralho. Logo ele vai estar grudado em uma teta igual aos irmãos. O Seu Jair é um péssimo pai e não precisa olhar muito longe para ver isso. Entre Flávio envolvido até o pescoço com a milícia, Carlos, o falastrão grosseiro que parece ser a pior companhia do mundo, e Eduardo, que é burro feito um saco de pregos e não tem a menor noção de nada nem porra nenhuma, é bem óbvio que este senhor não soube criar seus filhos. Mimando eles com “filé mignon” e acobertando todos os erros deles. Ou talvez ele tenha criado eles certinho, dentro do padrão ignorante e crasso da família Bolsonaro. Os filhos não deixam de ser reflexos do pai.

Talvez ter escrito um texto mais agressivo poderia ter mais eficácia, talvez não. Provavelmente não teria muito efeito num pleito onde eu via gente letrada acreditando nas mais fantasiosas notícias falsas. Mamadeira de piroca e fichinha perto de muita coisa que vi nas redes naquele Outubro. Depois de um longo ano com tantos absurdos, tanto horror, tanta incompetência, eu estou cada dia mais certo que a única coisa razoável a se fazer naquela eleição era ter votado no Haddad. Eu votei com uma ressaca terrível, ainda meio bêbado. Cercado por idiotas usando camisas falsificadas da CBF. Fui até a urna e apertei os botões “1” e “3” sem acreditar no movimento que meus dedos faziam. Confirmei. Não importa que eu saiba hoje que ele não tinha a menor chance ou que eu tenha me conformado que um governo do PT com o legislativo que temos hoje seria um massacre. Votar no Haddad foi pela minha consciência. Eu não iria conseguir dormir tranquilo sabendo que eu não fiz a minha parte, embora mínima. Se eu pudesse voltar àquele momento, faria tudo de novo.

Bem, talvez sem a ressaca.

Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.

Sociólogo de boteco, estudante de Letras, guitarrista ocasional, pai e leitor ávido de caixas de sucrilhos. Leio e escrevo sobre o que me dá na telha.